Quando os colonos ingleses se instalaram na costa leste do que veio a ser os Estados Unidos, para se fazer um vinhedo bastava cortar galhos das videiras escolhidas e enterrá-los a 3/4 do solo para se obter uma nova planta. Não era necessário enxertar (este era o modo como se propagava a parreira no mundo todo). Assim foi tentado por várias vezes, e em todas elas os vinhedos morriam em poucos anos. As videiras trazidas da Europa viviam no máximo cinco anos. Naquela época não se descobriu a "causa mortis". O fato é que, depois de algumas tentativas fracassadas, surgiram na população nativa de videiras americanas, algumas plantas com características melhores do que as originais. Isto decorreu pela hibridação (o pólen das videiras européias havia fecundado algumas flores femininas de videiras americanas nativas).
 
   Mais de um século depois deste evento, estas novas videiras americanas foram levadas à Inglaterra e a outros países europeus como curiosidades. Eram plantas rústicas, que produziam uma uva de sabor diferente e em abundância. Sem saber, nas raízes destas videiras estava sendo levada uma praga até então não existente na Europa. Na década de 1860 foi identificado nos vinhedos da França uma nova ameaça: as videiras morriam sem uma explicação razoável. Simplesmente ao se arrancar as parreiras mortas (plantas adultas que normalmente são impossíveis de serem arrancadas devido ao forte sistema de raízes que têm), era observado que não havia mais raízes.
 
  O mal se disseminou rapidamente devastando a França em um primeiro momento. Posteriormente atravessou os Alpes atingindo a Itália e os Pirineus atingindo a Espanha. Enquanto o problema se alastrava, um pesquisador francês, Jules Émile Planchon, descobriu que se tratava de um inseto.
 
   Este inseto é a Filoxera (Daktulosphaira vitifoliae), pulgão sugador, nativo dos Estados Unidos. Tem um ciclo de vida complexo, vivendo parte de sua vida dentro do solo sugando e injetando toxinas nas raízes das videiras e parte nas folhas das videiras, onde forma galhas (semelhante a pequenas verrugas na parte debaixo da folha) e completa seu ciclo reprodutivo. No Estado do Texas, foram identificadas videiras selvagens americanas que conviviam com a praga sem apresentar sintomas. Este material foi enviado para a Europa e com a prática de enxertia das viníferas sobre as americanas, os vinhedos foram salvos.

 

 

 

 

                                     

                    Filoxera na fase "Pulgão"                     Filoxera na fase "Mariposa"

 

 

                            

                                 Folhas atacadas pela  filoxera

 

 

  Os órgãos de pesquisa governamental e vários viveiristas particulares criaram uma imensa gama de variedades porta-enxertos, conseguindo adaptação a praticamente todos os tipos de clima e solo onde possa haver viticultura. Hoje em dia se têm cavalos (a variedade porta-enxerto) para serem usados em condições extremas de solo (terras muito secas, ou úmidas, ou compactas, ou arenosas, ou argilosas, etc.).
 
  O uso de porta-enxertos generalizou-se no mundo pois a filoxera se espalhou em praticamente todos os países vitícolas. Atualmente, somente estão livres o Chile, protegido pelo Oceano Pacífico a oeste, pela Cordilheira dos Andes a leste, pelo Deserto de Atacama no norte e pelas Geleiras no sul, e algumas áreas da Austrália e pequeníssimas áreas de solo muito arenoso na Espanha.
 
  O porta-enxertos induz um maior vigor nas videiras enxertadas. Este maior vigor fez os produtores aumentarem o espaçamento entre plantas e entre filas, tendo hoje em dia um número bem menor de videiras por hectare do que antes da filoxera. A conseqüência disto é a maior produtividade por planta atualmente do que na antiguidade, com queda na qualidade da uva. A título de exemplo, na região de Champagne antes da filoxera, se utilizavam cerca de 60.000 plantas por hectare e atualmente se utilizam perto de 10.000. Deste modo, videiras que eram muito vigorosas antes da filoxera chegar, foram substituídas por outras de menor vigor. Este é o caso da 'Carmenére' que praticamente desapareceu na França, mas permanece no Chile onde dispensa a enxertia. Também, as plantas enxertadas vivem menos tempo do que as não enxertadas, alterando um pouco o conceito de "vieilles vignes".
 
   Na década de 1990, a filoxera fez novos estragos nos vinhedos da Califórnia, onde se empregava quase que na totalidade o porta-enxertos 'AxR1'. Este tem em sua composição genética a própria Vitis vinifera, que é sensível à praga. Boa parte dos vinhedos teve de ser substituída por novos plantios com outro tipo de porta-enxerto.
 
  Cabe ressaltar que o porta-enxertos não transmite característica alguma para a variedade produtora. Não há qualquer tipo de mistura genética entre as partes que compõem uma videira moderna. Ou seja, as raízes são de uma planta de origem americana e a parte aérea de uma variedade produtora de uva européia.
 
  Atualmente há uma corrente de produtores europeus que pretende retomar o plantio de vinhedos sem usar porta-enxertos. A idéia é que se obteriam novamente os vinhos com as características que historicamente fizeram a fama dos mesmos. Isto, no entanto, é muito difícil. Seria necessário escolher cultivares viníferas mais resistentes à filoxera (há algumas variedades que, de fato, são menos sensíveis), escolher solos menos propícios ao inseto (terras muito arenosas) e fazer tratamentos com inseticidas específicos.
 
   Em suma, o surgimento da filoxera na Europa e sua posterior disseminação pelo mundo, forçou a adoção da prática de enxertia para o plantio de videiras finas (as uvas comuns, americanas, dispensam tal procedimento). O uso de porta-enxertos permitiu ampliar-se a área de viticultura (o que pode ser bom ou ruim), eliminou o uso de variedades muito vigorosas (o que é bom em termos de qualidade da uva) e diminuiu a longevidade das videiras (o que é ruim). Fazendo-se um balanço final, conclui-se que o porta-enxertos é um mal necessário, pois sem ele, a viticultura européia não teria sobrevivido